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A importância do contato humano para a vida de um bebê

Existe uma falsa ideia que muitos acreditam sobre as experiências de um bebê: eles só comem, dormem e fazem cocô. Não têm memória, não têm pensamentos e por isso não são afetados pelo o que acontece ao seu redor. Os saberes da psicologia atestam a importância do contato humano.

O que se tem comprovado é que um bebê precisa do afeto humano para sobreviver. Não basta que seja alimentado e tenha suas condições vitais e higiênicas satisfeitas. O bebê necessita de muito de mais, de um contato humano real que lhe proporcione carinho e segurança.

Tratando-se de psicanálise, alguns autores aprofundaram-se no estudo sobre os primeiros anos de vida de um ser humano. Não pretendo esgotar agora esse vasto tema, que com certeza será mais aprofundado em outros textos, mas dar um panorama geral sobre alguns dos principais autores que estudaram o assunto.

O primeiro dele chama-se René Árpád Spitz (1887 – 1974) um importante médico e psicanalista austríaco que estudou crianças hospitalizadas. Ele elaborou uma teoria sobre o desenvolvimento infantil na qual ele propos diferentes estágios para o amadurecimento psíquico dos bebês (se lhes interessar, posso descrever melhor as importantes conclusões desse autor em um outro texto). O que nos interessa dizer agora é que Spitz percebeu que as crianças hospitalizadas, ou seja, bebês que recebiam um contato afetivo muito menor e mais difuso entre vários cuidadores, tinham maior dificuldade de reconhecer e estabelecer um contato emocional com o rosto de um adulto, demorando mais tempo para sorrir.

Outro autor bastante conhecido da psicanálise, e sobre o qual pretendo falar muitas vezes ainda, é o Donald Woods Winnicott (1896 – 1971). Ele foi um pediatra e psicanalista inglês que teve o importante papel de dirigir o olhar da psicanálise para os processos psíquicos anteriores ao Complexo de Édipo (em breve teremos texto para explicar melhor esse conceito). Por ser um experiente pediatra, Winnicott tem uma vasta bagagem na observação de crianças e, portanto, suas contribuições são riquíssimas. A teoria de Winnicott compreende os estágios mais primitivos do desenvolvimento emocional do ser humano, constatando, a partir de sua observação prática, que a maior parte dos problemas emocionais encontra sua origem nas etapas precoces do desenvolvimento. O cerne de seu estudo está no que chamamos de relação mãe-bebê, já que para ele, a base da saúde mental de qualquer ser humano está ancorada meio ambiente propiciado por essa. Queremos salientar desde já que a função materna é sim fundamental, mas não necessariamente deve ser interpretada pela mãe biológica. Na verdade, o imprescindível é a presença de um outro fisicamente e psiquicamente disponível para os cuidados desse bebê. Se não houver aquilo que Winnicott chama de mãe suficientemente boa, as consequências podem ser irreversíveis.

Sei que estou deixando muitas pontas soltas, mas acreditem em mim, o tema é realmente muito amplo e profundo. Aos poucos explicarei mais sobre essas compreensões e espero que o cenário se clarifique. Para finalizar, gostaria de contar-lhes sobre um experimento bastante famoso da psicologia que, apesar das ressalvas éticas, pode ser usado para ilustrar um pouco disso que estamos falando.

O psicólogo norte-americano Harry F. Harlow (1905-1981) ficou conhecido pelas suas experiências sobre a privação maternal e social em macacos Rhesus, e que demonstraram a importância dos cuidados, do conforto e do amor nas primeiras etapas do desenvolvimento. Ele privou os macacos do convívio com suas mães e, como alternativa, criou duas “mães artificiais”. Uma era uma “mãe de arame”, feita de metal duro e frio, mas acompanhada de uma mamadeira onde os macacos podiam alimentar-se. Outra era uma “mãe de pano”, feita com tecido felpudo e macio, porém sem qualquer fonte de alimento associada. O que Harlow percebeu foi que os macacos consistentemente preferiam a “mãe de pano”, sugerindo que o afeto, em alguns casos, pode ser mais essencial para a sobrevivência do que a própria alimentação. Além disso, quando eram fornecidos novos estímulos para os macacos, eles pareciam sentir maior segurança para explorá-los quando estavam na presença da “mãe de pano”, demonstrando medo quando a mesma situação ocorria na presença da “mãe de arame” ou na ausência de ambas.

Vídeo do experimento:

O que esse interessante experimento nos mostra é que o afeto, o contato com o outro é sim muito essencial para o desenvolvimento de um ser. É uma necessidade básica tal qual o alimento, o sono e a higiene. O que veremos mais para frente é que não só a presença de um outro é fundamental, como a qualidade dessa presença é determinante para o desenvolvimento psíquico daquela criança, podendo produzir os mais diferentes resultados.

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