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Bird Box – um olhar para além do superficial

Para quem não conhece, Bird Box é um longa original da Netflix lançado em novembro de 2018. O filme foi baseado no livro de mesmo nome do autor Josh Malerman, publicado em 2014. A edição brasileira carrega o título Caixa de Pássaros.

A sinopse do filme resume: “Uma misteriosa presença leva as pessoas ao suicídio. Cinco anos depois, uma sobrevivente e seus dois filhos saem em busca de um abrigo seguro”. Basicamente, Bird Box se passa em um cenário pós-apocalíptico onde Malorie (Sandra Bullock) é uma das sobreviventes, que busca salvar a si mesma e a seus filhos de algum tipo de criatura, que ao ser vista faz as pessoas cometerem suicídio involuntariamente. Para evitar que isso aconteça, todos devem permanecer com os olhos vendados, em busca de um abrigo seguro.

O filme dividiu opiniões, enquanto alguns consideraram Bird Box aparentemente sem sentido, outros puderam analisá-lo para além do que era visto explicitamente, buscando significados mais profundos.

[ALERTA DE SPOILERS]

Desde o início do enredo, conhecemos a personagem Malorie como uma futura mãe que está tendo dificuldades de conectar-se afetivamente com seu bebê. Na verdade, fica claro que essa dificuldade se estende para muitos outros relacionamentos da vida dela, inclusive para a relação com sua irmã, tornando-a uma pessoa bastante solitária.

Bird Box alterna entre cenas do início do período apocalíptico com outras que se passam 5 anos depois, nas quais nos deparamos com Malorie fungindo com duas crianças, todos vendados, em busca de um lugar seguro. Percebemos a personagem como bastante objetiva, prática, calculista e pouco acolhedora com aqueles que ela protege.

Conforme acompanhamos o início do apocalipse, percebemos que Malorie passa a conviver com diferentes pessoas em uma mesma casa, que servia de abrigo para quem conseguia sobreviver a barbárie que tomava as ruas. Apesar da personagem tentar manter-se indiferente às relações que estão sendo construídas ali, inevitavelmente, ela também começa a formar vínculos. Podemos ver o desenvolvimento da relação amorosa entre Malorie e Tom (Trevante Rhodes), mas também de outras relações afetivas que implicaram a personagem a profundas e intensas ligações. Uma delas é a amizade que se constrói entre Malorie e Olympia (Danielle Macdonald) que, apesar de não terem muito em comum entre si, passam a cuidar uma da outra sob qualquer condição.

Depois de várias reviravoltas que o enredo nos apresenta, marcadas por perdas, mortes e lutos, reencontramos Malorie na parte final do filme fungindo com as duas crianças, dessa vez, nós conhecemos a sua trajetória. Passamos, talvez, a compreender melhor quem ela se tornou, empatizar de fato com a personagem. Como ser acolhedora, amorosa e protetora diante de tanto medo e sofrimento? Como construir vínculo com aquelas crianças? Parecem serem essas as questões principais que tomam Malorie.

Essa problemática fica ainda mais evidente quando nos damos conta que as crianças não tem um nome, Malorie refere-se a elas como menino e menina. Parece haver aí um forte medo de perde-las, do qual Malorie tenta proteger-se através de uma tentativa de não se vincular. Chegamos, então, a uma das cenas mais emblemáticas desse aspecto da trama. Tom está contando uma história para as crianças que se passa em um mundo livre e protegido. Malorie fica extremamente irritada com a atitude do companheiro e interrompe a história. Talvez para ela, a frustração de um sonho pode ser tão intensa que o que vale a pena é não sonhar.

Interessante que ao final do filme, quando os personagens conseguem chegar ao local protegido, todo o ambiente tem a atmosfera de um sonho, quase encantado. E é quando esse sonho pode ser um pouco vivido, que Malorie é capaz de nomear seu filho.

Quanto ao que as criaturas poderiam representar, penso que as interpretações podem ser muitas. Li em algumas análises pessoas relacionando-as com a depressão, que está tomando a sociedade, e levando ao suicídio. Segundo essa visão, Malorie estaria tentando proteger-se contra os pensamentos depressivos enquanto busca construir os vínculos com seus filhos e os outros a sua volta. Considero que essa interpretação vai ao encontro da análise que propus aqui.

Fica então o questionamento: será Bird Box um filme sobre criaturas místicas causadoras de um apocalipse global? Ou então um filme sobre os sofrimentos psíquicos na sociedade contemporânea, na qual os pensamentos depressivos e a dificuldade de vincular-se tornou-se o verdadeiro apocalipse? O que você vê?

Veja outra visão psicanalítica muito interessante sobre esse filme: Christian Dunker – Desejo em cena

Leia também meu texto inicial sobre a proposta desse site: Psicanálise no Cotidiano 

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4 comentários

  1. Adorei a sua análise!
    A princípio não tinha gostado do filme, mas gostei da possível relação com os sofrimentos da sociedade moderna que você trouxe no texto. Parabéns!

  2. Ótima analise Marina! Achei bem legal questionar se nao é um retrato do que esta acontecendo mesmo, queria saber também que interpretação podemos ter das pessoas imunes as criaturas? Nao consigo entender o papel deles, pode ser só um elemento a mais para o filme né, enfim.. Gostei bastante do texto!

    1. Oi Josy, que bom que gostou! Então, também me peguei pensando sobre o que as pessoas que veem a criatura e não se matam poderiam representar… Podemos perceber que elas não são simplismente imunes, elas ficam bastante delirantes. Me remeteu ao funcionamento dos psicóticos, talvez possa ser uma interpretação