Categorias: Cultura

Desfile de crianças para adoção: exposição e objetificação

Imagem relacionada

Sim, é isso mesmo que você está lendo, caro leitor: desfile de crianças para adoção. Mas o que isso significa? Que tipo de ideia foi essa? Esse texto se destina a abordar uma recente notícia que ganhou repercussões nacionais importantes, e com razão.

Vou te explicar melhor: no dia 22/05/19, o evento “Adoção na Passarela” aconteceu em um shopping de Cuiabá, no qual crianças e adolescentes de 4 a 17 anos, aptos a serem adotados, participaram de uma espécie de desfile. Segundo os próprios organizadores do evento, foi um dia especial para essas crianças e adolescentes, pois eles se arrumaram com cabeleireiros e maquiadores e usaram roupas especiais. Tudo isso enquanto o público todo do shopping assistia-os desfilar. A proposta do evento era de que fosse possível encontrar novas famílias  para aquelas crianças, incentivando a adoção tardia. Compreendo que as intenções do evento podem até ser boas, já que, atualmente, 88% das crianças prontas à adoção têm mais de oito anos e somente 4,5% dos pais pretendentes as aceitam. E defendo fortemente que sejam feitas campanhas que estimulem a adoção dessas crianças e adolescentes, para que eles também possam ter o direto à família.

Porém, é preciso colocar a criança em primeiro lugar. Da forma que é entendida hoje no Brasil, a adoção deve encontrar uma família para uma criança, e não o contrário. Isso significa que a criança é quem deve ser vista, considerada, escutada, respeitada.

Vamos exercitar a empatia e pensar um pouquinho em como essas crianças e adolescentes se sentem. Todos eles sofreram pelo menos um grande abandono em sua vida: o de sua família. Isso quando também não experienciaram outros traumas, como violências físicas e sexuais. Se veem extremamente solitários e desamparados no mundo. Muitos deles se martirizam pelos abandonos que sofreram, considerando que foi culpa deles o fato de terem sido rejeitados. Além disso, são crianças e adolescentes institucionalizados, que pouco tiveram um olhar atento para sua própria singularidade. Em essência, são seres humanos que sofreram muitas dores e perdas desde o início de sua vida, desprotegidos, negligenciados, traumatizados.

Quando são colocados para desfilar em um local público, para um evento que incentiva justamente a adoção, muitas dessas crianças e adolescentes renovam suas esperanças de que poderão encontrar uma família que lhes promova afeto, conforto e segurança. Só que a realidade nem sempre é essa. A grande maioria volta para os abrigos com, ao invés da esperança, a sensação de abandono renovada. Mais uma vez alguém não lhes quis. Por mais arrumados, produzidos, bonitos e alegres que tentaram se mostrar naquela passarela. Alguém nem assim os quis. Você consegue imaginar o que isso produz na mente dessa criança/adolescente? Sim, novamente a culpa. Culpam-se por imaginar que a sua adoção dependia do desempenho deles naquela passarela.

Dito isso, como é possível concordar com um evento como esse? Sim, é importante falar e incentivar a adoção tardia. Mas existem muitas formas de fazer isso, como rodas de conversa, palestras, exposição de fotografias… não é necessário submeter essas crianças e adolescentes, já tão traumatizados, a uma exposição como essa. Isso é tratá-las como objetos, que não veem, que não sentem, que não sofrem, que não sentem dor nem abandono. É o que chamamos que objetificação. E não, essas crianças e adolescentes não são objetos, são seres humanos, que por mais uma vez, revivem a negligência da sociedade.

Leia também outras análises culturais: Filme – Bird Box

Deixe seu comentário

2 comentários