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A pandemia no processo analítico

Vivemos hoje no Brasil o pior momento da pandemia – mais de um ano depois da chegada do COVID-19 no país.

Enquanto escrevo esse texto, já se contabilizam quase 280 mil mortos – perdas que beiram o impensável, dificultando a elaboração de lutos, produzindo um estado generalizado de melancolia. 

Impossível pensar no momento atual sem falar de trauma. Um dos pioneiros da psicanálise que enfatizou esse conceito foi Sándor Ferenczi. Diferentemente de Freud, que ressaltava a realidade psíquica, Ferenczi voltou seu olhar à realidade concreta desse fenômeno. 

Ele foi inovador ao falar que o trauma se dá como tal não só no momento da ocorrência de um evento violento, e sim, em um segundo momento, quando o outro não reconhece a vivência traumática – a isso Ferenczi dá o nome de desmentido. Ou seja, o trauma adquire ainda mais potência quando, no relato para o outro, o sujeito tem sua experiência deslegitimada ou desacreditada.  

É nesse sentido que, quando pensamos nos processos analíticos durante o momento atual de pandemia, é preciso priorizar o reconhecimento de um sofrimento individual e social, impedindo a ocorrência do desmentido. O analista deve auxiliar o paciente a atravessar esse período catastrófico, evitando os processos de negação e possibilitando que ele entre em contato com a realidade. É compartilhando suas angústias com um outro que pode dar testemunho ao seu relato, que o paciente transforma uma dor indizível em um luto passível de elaboração.  

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